Saigão I


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Não sei muito bem o que me deu para ir de férias para a Cochinchina e digo isto pela graça que acho ao nome dado pelos portugueses ao sul do Vietnam no tempo das descobertas, e por não significar, para mim que vivo em Macau, um lugar no fim do mundo onde nem sabemos muito bem explicar onde é. Talvez me tenha lembrado de ir para Saigão por ser fácil lá chegar, mais a mais indo sozinha, pois tenho um medo terrível de andar de avião e estou a 2 horas e dez minutos (desde Hong Kong) e por não conhecer e ter a cidade um certo fascínio de que nos dão notícia vários romances, tantos filmes e comoventes relatos de viagens.

E ainda inebriada com aquela cidade caótica e frenética, não sei dizer ao certo se é como me fizeram acreditar, mas há qualquer coisa que me diz que não tem o tamanho encanto que se apregoa. E não sinto isto porque não sendo em Ho Chi Minh que, pela primeira vez, os meus pés pisaram a Ásia e, portanto, não me pasmar tanto exotismo, mas porque a cidade não tem assim tanto para oferecer como nos fazem crer e porque por aqui perto há muito melhor em muitos sentidos, apesar de não poder concorrer em fama. Ainda, e talvez sobretudo, porque é uma cidade cheia de contradições, difícil de entender.
Não tem assim tanto para oferecer, disse, porque, num único dia, se vê tudo o que os turistas não podem perder, até porque todos esses lugares estão muito perto uns dos outros. E confunde-nos porque cultiva a memória dos horrores da guerra e das atrocidades cometidas pelos americanos e, ao mesmo tempo, a cidade parece acreditar que a intervenção militar para impedir o alastrar do comunismo na região até poderia ter algum sentido, pois parecem os vietnamitas render-se, despudoradamente, aos dólares como se, não sendo já Saigão como a conhecíamos, mas Ho Chi Minh, também não fosse já a República Socialista do Vietnam. Todos parecem clamar In God We Trust, com os olhos postos nas notas verdes do país e do povo que julguei quererem ver a léguas. Mas não é assim. Vivem muitos americanos permanentemente no Vietnam; são empresários e professores, quase todos, e há muitos aventureiros. 

Poderoso Caballero es D. Dinero, já se sabe; mas, passear pelas ruas e ver toda a gente e a toda a hora a contar as notas que tem no bolso é esquisito. E perceber que nos querem enganar nos trocos, no câmbio, nas compras, chega a ser irritante. Como nos quererem impingir em todo o lado, como se nunca estivéssemos a salvo, um tour de riquexó, de mota, de autocarro, de jipe; um passeio pelo Mekong, pelo rio Saigão, de barco, com jantar a bordo com danças e cantares ou uma volta numa lancha de madeira carcomida e pescador aposentado armado em lobo do mar de quem nos vemos livres quando usamos voz grossa e mostramos o mau feitio. Pretendem vencer-nos pelo cansaço e fingem que não lhes dizemos Não, obrigada

E mais aqueles que vendem tudo de contrafacção; e os que andam a seguir-nos oferecendo-nos massagens, entradas em bares, em restaurantes; óculos, isqueiros, leques, e até jornais locais como se nos contentássemos apenas em ver as fotografias de políticos ou celebridades do mundo do cinema ou do desporto. Um nunca mais acabar … 

Vendilhões de tudo o que se possa imaginar, numa cidade que nunca dorme. E parece que todos vivem na rua, onde comem, dormem, cozinham; onde há cabeleireiros, barbeiros, costureiras, sapateiros, mecânicos, manicures e pedicures, e quem faça depilação de sobrancelhas e maquilhe; e na rua se reza, se joga damas, se lêem jornais e livros, se espera por melhor sorte. É preciso ganhar a vida e cada um aprende como fazê-lo.

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Mas encontra-se muita gente simpática que vem ter connosco para saber de onde vimos, se estamos de férias ou a viver no Vietnam, se falamos francês, se estamos a gostar; e nos fazem muitas perguntas curiosas acerca do nosso país e nos contam as suas vidas enquanto visitamos museus, jardins, bebemos um sumo de fruta numa das muitas esplanadas e nos convidam para tudo, desde almoçar ou jantar para provarmos a verdadeira comida vietnamita, a visitarmos a sua casa. E ficamos com a sensação que estão todos com os olhos postos no ocidente; um diz que sonha chegar à Europa; outro em juntar-se à família na América e por aí fora, cruzando-se as suas vidas com o mundo inteiro.

É uma cidade que nos entristece à noite, sobretudo à noite. Nós, os turistas, a sairmos para jantar e para beber um copo e dançar; encontrarmos estrangeiros e partilharmos impressões da cidade, darmos gargalhadas e acharmos que foi uma noite bem simpática e, depois de sairmos de locais divertidos, animados e muito bem decorados, vemos gente a dormir em cima das motas, sua casa e seu local de trabalho. É tudo de seu que têm. E pior: estropiados de guerra que, durante o dia, vendendo lotaria ou outra coisa qualquer, sentados nos passeios públicos, nem dão a perceber que não têm uma perna. À noite, dormem nas ruas, agarrados às próteses. A guerra não foi assim há tanto tempo, e muitas vítimas aí estão para nos fazer lembrar que não somos ainda civilizados como julgamos. Como não esquecerei as mães que vi à porta de templos, dependentes da caridade, com os seus filhos e as suas mal-formações de que tinha ouvido falar e nunca tinha visto... 



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Mas o que realça, desde logo, é o trânsito caótico, o número exorbitante de motas; andam a buzinar, em todos os sentidos como os carrinhos de feira e nunca chocam nem atropelam os peões. São os melhores condutores do mundo ...

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